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O PERDÃO, o Apartheid, Desmond Tutu e Hannah Arendt.



A maior experiência coletiva de perdão, na era moderna[1]



A excelência do perdão está se mostrando cada dia mais, mediante incontáveis experiências individuais e/ou coletivas, práticas de educação, de ressocialização de presos e egressos, de harmonização e recuperação emocional e psíquica das vítimas de violência, da reconciliação entre comunidades de longa data beligerantes, entre países, entre povos...
Como instrumento incomparável para a pacificação dos sentimentos e equilíbrio da psique, o perdão mereceu atenção de praticamente todas as grandes mentes que passaram por este mundo. De Lao Tsé a Teresa de Calcutá, de Buda a Mandela, de Jesus a Gandhi...
Na seara dos filósofos, singular é a abordagem de Hannah Arendt, que afirma ser imprescindível o perdão e que ele está presente mesmo no equilíbrio entre as nações, entre Estados soberanos. Ela, judia... Teria todos os motivos para advogar causa oposta e postular, em primeiro lugar, a imprescindibilidade da punição a quem cometeu crimes contra a humanidade.




Em "A Condição Humana", ela afirma:
"Se não fôssemos perdoados, eximidos das consequências daquilo que fizemos, a nossa capacidade de agir ficaria por assim dizer limitada a um único acto do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre as vítimas das suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço.
.  .  .
Sob esse aspecto, o perdão é o exato oposto da vingança, que atua como re-ação a uma ofensa inicial, com a qual, longe de porem fim às consequências da primeira falta, todos permanecem enredados no processo, permitindo que a reação em cadeia contida em cada ação siga livremente seu curso. Ao contrário da vingança, que é a reação natural e automática à transgressão e que, devido à irreversibilidade do processo da ação, pode ser esperada e até calculada, o ato de perdoar jamais pode ser previsto; é a única reação que atua de modo inesperado e, embora seja reação, conserva algo do caráter original da ação. Em outras palavras, o perdão é a única reação que não re-age apenas, mas age de novo e inesperadamente, sem ser condicionado pelo ato que a provocou e de cujas consequências liberta, por conseguinte, tanto o que perdoa quanto o que é perdoado (...)."
Pois bem: para mim, a maior experiência coletiva da era moderna, a respeito do perdão, foram as muitas e muitas reuniões da Comissão para a Verdade e Reconciliação, lideradas pela alma nobre de Desmond Tutu, na África do Sul pós Apartheid.





Nelas, vítimas e algozes se defrontaram, narrando, confessando suas dores e seus crimes, em encontros que marcaram a face daquele país com o selo da concórdia, para que surgisse a nova nação, um novo povo, pelo menos suas sementes, ao menos seus alicerces. Em encontros cujas gravações de áudio/vídeo eu o desafio você a ver, sem sentir uma profunda emoção ou sem chorar...
O que os realizadores dos encontros entre vítimas e criminosos, nas iniciativas de Justiça Restaurativa, promovem entre poucas pessoas, Desmond Tutu e a Comissão realizaram para centenas, milhares em todo o país. E nelas, ódios que perdurariam por toda uma vida ou além dela... Rancores que levariam à loucura, à vingança, à brutalidade imensa da desforra, foram "transubstanciados" em perdão, a coisa imprevisível e incondicionada de que nos falou Arendt...
A meu ver não há, nos últimos duzentos anos, nenhuma experiência tão exitosa de reconciliação entre toda uma coletividade de milhões de opressores, e toda uma coletividade de milhões de oprimidos e vitimados. Nem as iniciativas de Gandhi, na Índia, tiveram o mesmo condão, porque houve tantas comoções que Índia e Nepal tiveram de apartar fronteiras, após a libertação ante a Coroa Britânica.
Talvez poucos Nobel da Paz tenham caído em tão boas e merecedoras mãos, como as de Desmond Tutu.







[1] Texto de 18 de julho de 2015.

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